Todo corpo é berço
Onde a luz demora entender
Nele guardamos num dialeto único
A língua que aprendemos
Por isso nele tudo se faz acender
Lembra que fomos feitos
De um barro mais quente e úmido
Mais raiz?
Há no entanto um lado de cada um
Que só se mostra no escuro
Esse que respira pelo avesso
Onde o silêncio tem forma fim e começo
Onde o afeto é tão denso e mais duro
Que quase se pode morder
Meu corpo é um verso desses
Que nem eu ainda traduzi inteiro
Ele se move com a calma de quem sabe
Que toda geografia íntima e matéria
É feita de esperas e festa
E enquanto me deita imperfeito
Sente parte do peso do mundo
E me acerta ou detesta
Lembro do que sou feito
E apodreço ou renasço
Por detrás do nariz
@psrosseto