
Arraial d’Ajuda, distrito de Porto Seguro, recebe nesta quinta e sexta-feira, 25 e 26 de setembro, o Circuito POCAR, iniciativa cultural que propõe um encontro entre memórias, ancestralidades e manifestações populares da Bahia e do Espírito Santo. Com entrada gratuita, a programação será realizada no adro da Igreja de Nossa Senhora d’Ajuda, reunindo espetáculos teatrais, música, apresentações indígenas e outras expressões culturais.
De origem capixaba, o Circuito POCAR é promovido pelo Instituto Cultural Tambor de Raiz e nasceu a partir do POCAR Festival de Cultura, realizado em Conceição da Barra (ES). A proposta é ampliar para outros territórios uma experiência artística e formativa construída a partir das culturas populares e dos saberes tradicionais.
A chegada do circuito a Arraial d’Ajuda representa, portanto, mais do que a realização de uma programação cultural. A iniciativa estabelece uma ponte entre territórios historicamente relacionados e coloca em diálogo artistas capixabas, produtores culturais e manifestações tradicionais de Porto Seguro e da Bahia.
Para Didito Camillo, presidente do Instituto Cultural Tambor de Raiz, o encontro produz impactos para artistas, instituição e público. Segundo ele, o evento possibilita uma aproximação entre as culturas capixaba e baiana e cria uma oportunidade de intercâmbio cultural.

Camillo também chama atenção para as relações históricas entre os territórios. Embora atualmente separados por algumas horas de viagem, regiões do norte do Espírito Santo e do extremo sul da Bahia compartilham referências históricas e culturais. Ele destaca, especialmente, a região do Sapê do Norte, que esteve relacionada à antiga Capitania de Porto Seguro, e a importância da produção de farinha de mandioca para a subsistência das populações locais.
É justamente nesse território de fronteiras geográficas, mas de memórias compartilhadas, que o Circuito POCAR encontra uma de suas principais dimensões. A aproximação entre manifestações indígenas, quilombolas e populares evidencia que a cultura regional não se limita às divisões administrativas entre estados. Ela também é construída por deslocamentos, trocas, modos de vida, religiosidades, música, alimentação, oralidade e ancestralidade.
Programação
Na sexta-feira (25), a abertura contará com apresentação teatral do Instituto Cultural Tambor de Raiz, abordando as vivências do Sapê do Norte. Em seguida, haverá ritual e música da Reserva Pataxó Porto do Boi, além do show de Hemaidan e Banda.
No sábado (26), a programação começa com o espetáculo cômico infantil de Vitor Passarim, seguido da apresentação da Família Aldeia Música Medicina e Ancestralidade. Após a missa no Santuário, a noite terá as sonoridades da banda Maria Horta e será encerrada com o tradicional forró pé de serra do Trio Fogumano.
Memória como patrimônio vivo
A realização do Circuito POCAR em Arraial d’Ajuda também coloca em evidência um debate cada vez mais presente no campo cultural: a necessidade de reconhecer povos indígenas, comunidades quilombolas e grupos tradicionais não apenas como elementos do patrimônio turístico, mas como protagonistas na produção da memória e da identidade dos territórios.
Em uma região cuja economia está fortemente associada ao turismo, iniciativas dessa natureza criam espaço para que manifestações culturais sejam apresentadas a moradores e visitantes a partir de seus próprios saberes e narrativas.
Mais do que levar uma programação capixaba à Bahia, o Circuito POCAR propõe um encontro de memórias. Ao aproximar artistas, comunidades e tradições dos dois estados, o evento evidencia que a cultura popular é também território de conexão histórica, resistência e transmissão de conhecimentos entre gerações.