A política brasileira tem um talento extraordinário para fabricar ironias. A mais recente atende pelo nome de Michelle Bolsonaro.
Durante anos, Michelle foi apresentada como o grande trunfo do bolsonarismo para conquistar o voto feminino. Era a prova de que o movimento também tinha um rosto capaz de dialogar com as mulheres. Subia em palanques, mobilizava multidões, lotava igrejas, emocionava plateias e, principalmente, entregava votos. Enquanto servia para isso, era tratada como líder.
Bastou começar a parecer grande demais para descobrir uma velha verdade da política: mulher pode até subir ao palco, desde que não tente pegar o microfone.
Foi então que surgiram os inquisidores do próprio movimento.
Paulo Figueiredo resolveu oferecer ao Brasil uma tese que talvez fizesse sucesso em algum boteco de 1953: “mulheres votam muito mal”. É curioso. Quando as mulheres votavam em Jair Bolsonaro, eram patriotas, mães de família e guardiãs dos valores cristãos. Quando passaram a enxergar em Michelle uma liderança própria, descobriram, de repente, que não sabem votar.
É uma velocidade impressionante. O bolsonarismo levou apenas alguns minutos para trocar o discurso da valorização da mulher pela velha desconfiança sobre sua capacidade de decidir.
Não foi apenas um ataque a Michelle. Foi um ataque à inteligência de metade do eleitorado brasileiro.
E aqui mora o detalhe mais revelador da história.
Durante anos, o bolsonarismo acusou adversários de enxergar machismo em toda parte. Bastou uma disputa interna para que alguns de seus próprios porta-vozes recorressem ao argumento mais antigo do patriarcado: o problema não é o homem. O problema é a mulher.
Simples. Econômico. Conveniente.
Quando uma mulher cresce politicamente, deixa de ser “primeira-dama” para se tornar concorrente. E concorrente, convenhamos, assusta muito mais do que adversário.
O mais divertido é observar o malabarismo retórico.
Michelle passou anos defendendo o movimento. Percorreu o país. Fez campanha. Atraiu um eleitorado que Jair Bolsonaro jamais conseguiu conquistar sozinho. Serviu ao projeto político sem reclamar dos bastidores.
Mas bastou deixar de ser apenas patrimônio eleitoral para virar alvo do fogo amigo.
No bolsonarismo parece existir uma regra silenciosa: mulher pode representar o poder. Exercê-lo já é outra conversa.
Depois do ataque, surgem os bombeiros oficiais dizendo que houve exagero, que a frase foi mal interpretada, que não era bem isso.
Claro.
A misoginia raramente bate à porta dizendo quem é. Ela entra travestida de estratégia, de sinceridade ou de opinião inconveniente.
O curioso é que ninguém fez a pergunta mais simples.
Se as mulheres “votam mal”, quem comemorou esses votos durante todos esses anos? Quem percorreu o país pedindo o voto das mulheres? Quem transformou esse eleitorado em ativo político?
A resposta é evidente.
Enquanto o voto feminino fortalecia o projeto político, era celebrado. Quando passou a fortalecer uma mulher com protagonismo próprio, tornou-se motivo de desconfiança.
É aí que a máscara escorrega.
O problema nunca foi Michelle Bolsonaro.
O problema é perceber que uma mulher pode deixar de ser cabo eleitoral para se tornar protagonista.
E isso, para parte do bolsonarismo, parece ser um pecado maior do que qualquer divergência política.
Talvez Michelle Bolsonaro tenha prestado ao país um serviço involuntário.
Ao se tornar uma liderança de verdade, obrigou parte do bolsonarismo a revelar uma contradição que durante anos permaneceu escondida sob discursos sobre família, respeito e valores cristãos.
Às vezes, basta uma mulher crescer para muitos homens revelarem o tamanho de suas inseguranças.