Faltam 31 dias para a eleição presidencial e, em qualquer país minimamente interessado no próprio futuro, estaríamos discutindo juros, saúde, educação, segurança, dívida pública, produtividade e crescimento. No Brasil, não. Aqui conseguimos transformar uma eleição presidencial numa mistura de programa policial, reunião de família, sessão de terapia e série política. O mais extraordinário é que o principal personagem dessa campanha nem sequer é candidato.
Os juros continuam nas alturas, o crédito custa uma fortuna, o empresário pensa duas vezes antes de investir e o cidadão parcela até o supermercado. Educação e saúde seguem acumulando velhos problemas, a segurança pública enfrenta o avanço do crime organizado e ninguém parece disposto a explicar seriamente como pretende financiar o país que promete. Mas tudo isso pode esperar. Temos perguntas mais urgentes: quem falou com quem, quem recebeu de quem, quem viajou com quem e qual autoridade apareceu no celular de qual banqueiro.
Lula disputa mais uma eleição oferecendo uma versão atualizada do mesmo sistema operacional. Programas sociais, investimentos, crescimento, combate à fome, inclusão e desenvolvimento. Tudo conhecido. Quando a conversa chega à redução estrutural dos juros, produtividade, dívida pública e responsabilidade fiscal, porém, a campanha entra naquela tradicional zona brasileira chamada “depois a gente resolve”. O futuro parece novo no discurso e estranhamente familiar na prateleira.
Flávio Bolsonaro vive situação ainda mais curiosa. É candidato à Presidência, mas grande parte de sua campanha parece conduzida pelo departamento de assuntos relacionados a Jair Bolsonaro. Fala-se em anistia, Supremo, Alexandre de Moraes, perseguição, injustiça e legado. O pai está preso, mas continua eleitoralmente mais presente que muitos candidatos em liberdade. Quando sobra algum espaço entre uma defesa e outra, aparece o Brasil.
E então surgiu Augusto Cury, a surpresa da eleição. Escritor, psiquiatra e fenômeno editorial, trouxe inteligência artificial, robótica, empreendedorismo, educação emocional, drones e tecnologia. Algumas ideias são interessantes. Outras parecem uma palestra motivacional procurando desesperadamente uma planilha de Excel. O problema começa quando entusiasmo precisa virar orçamento, cronograma, dívida pública e engenharia econômica. No Brasil de 2026, até o PowerPoint resolveu disputar a Presidência.
Enquanto isso, Zema, Caiado, Renan Santos e os demais tentam provar que existem. Uns apresentam propostas, outros indignação, números ou vídeos. O eleitor apresenta cansaço. Temos candidatos suficientes para quase duas seleções de futebol, mas seguimos sem uma discussão proporcionalmente grande sobre o país que qualquer um deles pretende governar.
Foi então que Daniel Vorcaro entrou na campanha.
Sem partido.
Sem vice.
Sem santinho.
Sem horário eleitoral.
Sem pedir voto.
O ex-dono do Banco Master simplesmente atravessou a eleição e tomou o palco. De repente, mensagens, investigações, relações com autoridades, Alexandre de Moraes, Polícia Federal e Banco Master passaram a ocupar mais espaço do que saúde, educação e economia.
Mas no Brasil o absurdo nunca aparece sozinho. Ele sempre traz um absurdo maior pela mão.
Porque Vorcaro também surgiu ligado ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Ou seja, o homem que virou problema no noticiário envolvendo Alexandre de Moraes também apareceu ligado a uma produção sobre o principal adversário político do ministro. E o filho desse adversário concorre à Presidência.
É maravilhoso.
Não politicamente.
Cinematograficamente.
Se alguém apresentasse esse roteiro a uma produtora, provavelmente ouviria que exagerou. Um banqueiro investigado aparece no centro de uma história envolvendo ministro do Supremo e, simultaneamente, num filme sobre Bolsonaro. Flávio disputa a Presidência. Lula tenta atravessar a confusão sem ser tragado. Os demais candidatos aguardam quinze segundos de atenção. E o brasileiro tenta descobrir se está escolhendo um presidente ou assistindo à temporada final de uma série que perdeu o controle dos próprios personagens.
Vorcaro fez o que toda campanha tenta fazer: conquistou atenção.
Lula tem décadas de política. Flávio tem Bolsonaro. Augusto Cury tem milhões de livros vendidos. Zema tem Minas. Caiado tem Goiás. Renan Santos tem a internet.
Vorcaro tem o roteiro.
E roteiro, no Brasil, parece valer mais que programa de governo.
O caso precisa ser investigado profundamente. Relações envolvendo banqueiros, políticos, autoridades e interesses econômicos não são entretenimento, são assunto de Estado. O problema não é o país discutir Vorcaro. O problema é perceber como foi fácil para ele retirar do centro da campanha aquilo que já estava quase fora dela: o próprio Brasil.
Faltam 31 dias e ainda não sabemos, com a clareza necessária, quem tem plano consistente para reduzir o custo do crédito, recuperar a educação pública, financiar a saúde, enfrentar o crime organizado, aumentar produtividade e fazer o país crescer sem transformar o orçamento numa peça de ficção.
Essas perguntas continuam na sala de espera.
Até lá, temos Lula, Flávio, Bolsonaro, Cury, Moraes, Banco Master, mensagens, filmes, milhões, Polícia Federal, Supremo e Daniel Vorcaro.
Falta apenas uma coisa nessa eleição presidencial: a eleição presidencial.
E talvez esteja aí o maior absurdo de 2026.
Vorcaro não precisa vencer Lula. Não precisa vencer Flávio. Não precisa ultrapassar Augusto Cury. Não precisa aparecer em pesquisa e nem sequer precisa ser candidato.
Faltando 31 dias para a eleição, ele conseguiu algo que nenhum presidenciável conseguiu: fazer todos eles disputarem espaço dentro da história dele.