PORTO SEGURO: UMA CIDADE SABOR TURISMO

Que a cidade de Porto Seguro é um dos principais destinos do país com recordes constantes de visitantes, todo mundo sabe. O esforço contínuo da população e das empresas da cidade para oferecer atrativos e condições para os turistas aproveitarem o destino transformaram Porto Seguro numa gigante do setor.

Mas tem um ator desta equação que, quando muito, finge se importar com o turismo da cidade: a gestão pública municipal de Porto Seguro. A cidade é vendida como turística, mas é só saborizada, as reais tomadas de decisão são contrárias ao desenvolvimento adequado da atividade turística.

Não é de hoje. Faz tempo que gestões da cidade encaram o setor de turismo como um entreposto para venda de passagens aéreas, num samba de uma nota só, frequentando feiras em busca de convencer agências a venderem o destino. E só.

O modelo passa longe de ser uma política pública de turismo e está muito mais para uma simples agência de promoção do destino que, apesar de relevante em certa medida, está muito aquém do que realmente é pensar a atividade turística.

O turismo é uma atividade econômica extremamente complexa, transversal, e que, enquanto política pública, precisa ser implementada em sintonia com a qualidade de vida da população local. Vender passagem e comemorar mais visitantes sem nenhuma reflexão sobre os impactos no destino é imprimir uma visão privatista e limitada do que efetivamente precisa ser feito.

E a cidade de Porto Seguro é refém deste modelo há tempos. Fruto de gestões seguidas de turismólogos ligados ao modelo retrógrado da década de 1990, nascido com a Soletur e ramificada para CVC, Forma e afins. Para estes profissionais do setor privado e que ocupam a gestão pública, o turismo enquanto política pública deve ser gerido como se fosse um complexo de lazer ou um resort all inclusive.

Acontece que, quando falamos de política pública, a abrangência do turismo é infinitamente maior do que isso. Esse modelo é uma pequena fração das possibilidades e das obrigações de uma cidade onde praticamente 90% da sua economia depende diretamente do setor.

Assim, outras tantas formas de turismo e seus desdobramentos sofrem o martírio de serem governadas por quem não entende nada que não seja projetar na gestão da cidade o que se faz em um Toa Toa ou um Axé moi.

Como atividade econômica mais forte da cidade, o turismo precisa refletir necessariamente em melhoria de vida da população, diminuição das desigualdades, melhoria de infraestrutura, incremento dos serviços públicos, regeneração ambiental. Fatores que passam distantes da gestão turística de Porto Seguro, por sequer entenderem fazer parte das responsabilidades.

Pelo contrário.

Porto Seguro opera, em verdade, como balcão de negócios da especulação imobiliária, com a proliferação de condomínios e estúdios que avançam sobre áreas de preservação, zonas históricas e privatizam espaços públicos. Há uma deterioração acelerada da qualidade de vida com o aumento dos aluguéis, com a descaracterização do destino, com o crescimento desordenado, a piora ambiental e o crescimento da informalidade do mercado de trabalho.

E os turismólogos da gestão pública sequer enxergam como sendo, tudo isso, impacto direto do modelo operado atualmente. Seguem ocupados gastando o parco orçamento destinado à pasta em viagens de promoção do destino, como se usassem antolhos, aqueles acessórios que vão à cabeça dos cavalos para reduzir a visão periférica e que só os permite um campo de visão reduzido.

Para piorar, replicam experiências fracassadas de outros balneários turísticos pelo mundo, na busca por ser só mais um lugar igual a tantos outros, sem perceber que o que nos diferencia é justamente o que nos faz tão especiais para garantir visitantes não apenas para os dias atuais, mas visando o futuro.

Trazem cruzeiros que poluem o equivalente a grandes cidades e podem acabar com o Parque Marinho do Recife de Fora e o avistamento de baleias; permitem a construção de zonas inteiras da cidade sem respeito a padrões paisagísticos e ambientais que garantem a ambiência, a adaptação climática e a biodiversidade; aprovam empreendimentos de estúdios que, em verdade, geram concorrência desleal com hotéis e pousadas, e que não recolherão nenhum real de impostos municipais e gerarão muito menos postos de trabalho formais; não atuam sobre a geração de resíduos sólidos e seus impactos, com ruas sujas; permitem que os rios (e consequentemente as praias) fiquem impróprias para banho por conta de poluição; permitem que locadoras de veículos, zona azul e flanelinhas transformem o trânsito da cidade em caos generalizado; e tantos outros exemplos.

É preciso dizer o óbvio, em especial para quem acha que entende de turismo, mas que trabalharia no máximo no balcão de uma agência de viagens em uma cidade que levasse a sério o tema: Não há outro caminho para Porto Seguro melhorar a condição de vida da sua população que não seja através da transversalidade do turismo.

O turismo é o nosso “royalty de petróleo” e precisa ser tratado como tal. É preciso que saia do turismo o investimento necessário para a melhora de vida da população como um todo.

É esta a atividade que garante e que garantirá, ainda que no curto prazo, condições para que a cidade se desenvolva de maneira sustentável. Se não for o turismo, como nossa principal atividade econômica, o cerne da emancipação do povo de Porto Seguro, estaremos fadados a nos tornar mais um ex-destino e condenar o nosso povo à precariedade.

Mas para isso é preciso transmutá-lo para ser a ferramenta de transformação da cidade. Chega de sermos uma cidade sabor turismo, Porto Seguro é muito grande para se prestar a este papel.